Este ano a FAJDP completa 30 anos de existência e foste um dos elementos que esteve por detrás da sua criação aquando o 1º encontro regional de associações juvenis do distrito do porto. Ainda te recordas desse dia? Qual a principal motivação por detrás da criação da FAJDP?

Sim, fui um dos que participei no processo de criação da FAJDP. Curiosamente, não consegui participar no 1º encontro. Era jogador de futebol e nesse domingo tive jogo e não pude. Foram outros colegas da minha associação, a Associação Avense AA78 que foram ao encontro mas eu fui eleito para a direção.

A FAJDP surge num contexto muito próprio: tudo começa com o ano internacional da juventude, em 1985, e com a falta de apoios e de reconhecimento do movimento associativo juvenil de base local. O Conselho Nacional da Juventude também não permitia a integração de associações juvenis locais, só aceitava as de âmbito nacional. O que começou como uma luta para o reconhecimento da importância deste movimento e de reivindicação por apoios financeiros, rapidamente se transformou numa lógica de parceria e complementaridade. Tivemos interlocutores políticos a nível local e nacional que reconheceram o nosso papel e a importância da nossa atividade e que nos integraram como interlocutores e parceiros, representantes de um setor associativo que envolvia e envolve milhares de jovens e de dirigentes associativos e de um movimento com uma atividade bastante relevante para as comunidades onde se inseriam, substituindo muitas vezes o estado central e as autarquias locais em muitas das suas atribuições.

Em 30 anos quais as principais conquistas a nível do associativismo juvenil no Porto?

O Porto e o Norte sempre foram pioneiros em muitas matérias. Existe na região uma forte tradição associativa e de participação social, cívica e politica. Também na área da juventude isso aconteceu. O reconhecimento político da importância do movimento associativo juvenil de base local foi muito importante. O estatuto de parceiro na definição das políticas de juventude, a participação nos processos de cogestão da área da juventude, a consolidação dos programas de apoio ao associativismo juvenil, o direito de associação de menores, o estatuto de dirigente associativo juvenil, o estabelecimento de programas de formação ou o apoio para a criação de infraestruturas e equipamentos de apoio à atividade associativa, foram algumas conquistas fundamentais e nas quais a FAJDP participou ativamente.

E quais as mudanças a serem, ainda, implementadas?

A ideia que tenho é que houve algum retrocesso nos últimos tempos. É necessário trabalhar na consolidação da importância da educação não formal; na criação de espaços e condições efetivas de participação social e política, na participação efetiva dos jovens nos processos de decisão. Não basta dizer que há diálogo estruturado, que há políticas de juventude ou que há programas de apoio financeiro para as associações juvenis, é preciso uma estratégia integrada, multidisciplinar que possibilite a criação de condições objetivas de descriminação positiva, valorizando o movimento associativo e o papel formativo e integrador das associações, acreditar no potencial dos jovens e tornar realidade o seu envolvimento nos processos de decisão das politicas setoriais que lhes dizem respeito, contribuindo assim para a sua efetiva autonomia e integração social.

A FAJDP foi -e é – um órgão pioneiro de representação do movimento associativo juvenil e serviu de inspiração para a criação de outras federações regionais e até da nacional (FNAJ). Estava entre os vossos objetivos iniciais a replicação a nível nacional?

A FAJDP foi, de facto, pioneira neste tipo de estrutura representativa e foi um movimento em crescendo graças a um grupo de jovens dirigentes determinado, disponível, não só no sentido da defesa das ideias mas também do interesse em transformar este movimento num processo irreversível e isso passava por envolver outras regiões neste processo. Lembro-me do primeiro encontro nacional de juventude em que realizamos um trabalho e uma mobilização boca a boca para ganharmos as associações para a nossa causa, não só para que fôssemos tidos em conta na definição e organização das questões relevantes para os jovens, mas também no sentido de se organizarem movimentos federativos como o do Porto, pois havia a consciência de que quanto mais fortes e reconhecidos fôssemos, mais poder teríamos. Na época, fizemos milhares de km de comboio, em reuniões praticamente por todo o país. A ideia foi sempre a de ganhar escala, partilhar experiências, trabalhar em conjunto para o reconhecimento e valorização de um sector que não tinha voz, mas que envolvia milhares de jovens e de dirigentes e que abrangia todo o território nacional. O Porto assumiu de forma natural essa liderança, mas sempre numa perspetiva de interesse comum de abertura e de partilha de valores e não de protagonismos.

Como caracterizas o movimento associativo juvenil contemporâneo?

O movimento associativo tem hoje características muito diferentes. Os problemas são outros, as necessidades são outras e o papel das associações é também diferente. Mas existem características que se mantêm. Antes muitas das associações eram ecléticas, faziam muitas coisas, na área da cultura, do desporto, do recreio e da animação, muitas agiam para a transformação social através de projetos de intervenção comunitária e animação sócio cultural, que procuravam responder a necessidades e problemas concretos da população mais localizadas. As associações que foram capazes de se transformar e acompanhar uma certa mudança social, reconvertendo-se em entidades de “prestação de serviços”, foram conseguindo sobreviver. As que não foram capazes de mudar tornaram-se irrelevantes ou desapareceram.

Hoje é importante pensar nas novas formas de participação, nos novos interesses e necessidades dos jovens. É necessário trabalhar em conjunto, estabelecer redes de contacto de conhecimento e de partilha. É importante partilhar experiências descobrir novas formas de pensar e de intervir para resolver problemas.

Portugal tem um património que não pode desperdiçar, um movimento associativo com características únicas, mas nem sempre valorizado. As associações juvenis sempre foram ótimos espaços de promoção de atitudes empreendedoras; espaços de capacitação e de desenvolvimento de competências. Podem ser excelentes laboratórios de iniciativas inovadoras e de experimentação social, ideias que depois de testadas podem ser adaptadas e replicadas em contextos formais com menor risco. Serão sempre excelentes escolas de cidadania e participação.

Qual a mensagem que queres deixar aos jovens?

Que se organizem, que acreditem na sua energia e capacidade transformadora. Portugal tem, em termos académicos, a geração mais bem preparada de sempre, ao mesmo tempo é, talvez, a que tem o futuro mais incerto. A educação não formal desempenha um papel cada vez mais essencial, a capacidade que cada um tiver em fazer coisas fora dos contextos formais de educação e formação pode fazer a diferença. Os jovens portugueses já demonstraram em diferentes contextos, que são tão bons ou melhores que os outros, criativos, inovadores, com espirito de iniciativa e grande capacidade de adaptação o que os torna muito competitivos num mundo, e num  mercado, em que a competição tende a ser cada vez mais global, mas onde pode ser valorizado o que é particular e diferente.

 E à FAJDP?

 Que continue a desenvolver o seu trabalho de interlocução, de coordenação, de representação, de capacitação do movimento e de formação dos dirigentes, não esquecendo o papel reivindicativo e de critica construtiva, que sempre a caracterizou, identificando problemas mas apresentando soluções, contribuindo sempre de forma ativa para a resolução dos problemas do setor.